Para a regressão do analfabetismo Musical

Texto de Edgar Willems
Tradução Carmen Mettig Rocha

Desde que sabemos que os elementos fundamentais da música dependem dos elementos fundamentais do ser humano, fisiológicos, afetivos e mentais, o problema do analfabetismo musical pode ser colocado sobre o mesmo plano psicológico do analfabetismo verbal.
Pode-se evidentemente viver bem sem saber ler e escrever a música e mesmo sem saber ler e escrever a língua materna; o animal vive bem sem saber falar! É uma questão de relatividade.
É normal que o ser humano saiba falar, ler e escrever; estes são atos mentais do homem e que fazem parte intrínseca de sua evolução.

Num certo sentido, se pode viver sem a música, como sem religião e sem grande inteligência mas os imperativos da evolução humana comporta no caso do homem, um sentido religioso e artístico.
A música tem sido praticada de maneiras diversas, sobretudo sob a forma vocal e instrumental.
A escrita e a leitura foram negligenciadas sobretudo pelo fato que não é fácil de concretizar a música, arte particularmente imaterial e pouco cerebral.

No período atual se redescobre o valor cultural da música e paralelamente tem-se procurado colocar à disposição de todo ser humano, a partir da idade da razão (6 ou 7 anos), a possibilidade de ler e escrever a música. É atualmente um fato consumado.

Infelizmente muitos métodos implementados complicam o problema por falta de bases psicológicas ou por tradições, utilizando as antigas letras alfabéticas, o sistema Tonica Dó e ainda a fononimia; são 3 símbolos, ainda que um só, (as sílabas propostas por Guido D’ Arezzo, do re mi, etc.) sejam suficientes tanto para a audição relativa quanto a absoluta.
Para a escrita existe também um sistema simples e lógico baseado sobre uma pauta total de onze linhas, permitindo ler facilmente as duas claves de Sol e Fá.

Quanto ao valor cultural da música, ela foi reconhecida em todos os tempos, sobretudo pelos sábios da antiguidade, chineses, hindus, gregos e outros, mas acontece que ao passar dos séculos, o aspecto involutivo material superou o aspecto espiritual evolutivo; o interesse existencialista (instrumento, técnica) válido em si mesmo, domina o aspecto essencialista, não interessando mais, durante todo um período, mais do que aos filósofos e atualmente alguns psicólogos. É sobretudo no mundo da educação nova que o valor cultural da música retoma o seu lugar.

Como a leitura e a escrita constituem atos mentais, os nomes das notas são os símbolos necessários.
Bem empregados, eles permitem obter facilmente o automatismo dos nomes, chave da consciência intelectual, indispensável para passar do concreto ao abstrato e realizar, vitalmente, sem esforço, a vida sonora, particularmente no que se refere à altura dos sons, elemento fundamental dos intervalos melódicos e harmônicos e dos acordes.

Com o método tradicional ocidental desenvolvido sob o aspecto psicológico se pode obter de toda criança na idade da razão, uma pratica solfégica e instrumental normal; e não esqueçamos da voz. Mesmo crianças com deficit de aprendizagem, podem chegar a ler e escrever a música embora o tempo de aprendizagem seja longo. A impossibilidade praticamente não existe.
O ser humano é universal, planetário. É normal considerar uma educação musical, planetária, baseada sobre a natureza humana dinâmica, sensorial afetiva e mental. Salientamos que a natureza humana é musical é cósmica; ela é animada pelas forças vitais que anima os diversos reinos da natureza: vegetal, animal, humana, e não se exclui eventualmente o supra humano.É normal que um atual professor de música considere a possibilidade de diminuir o número de analfabetos musicais.
Para concluir, nós dizemos: se pode viver sem música, mais menos bem e ainda dizemos: se pode fazer música sem saber ler e escrever, mas menos bem.

Edgar Willems
Texto registrado no livro “Sur Les Pas D’ Edgar Willems”