Um artigo da Profa. Carmen Mettig Rocha sobre o Solfejo
Caros amigos educadores musicais:
Escrevo este texto em forma de carta para falar de um assunto que me chama atenção quando converso com colegas, quando recebo novos alunos no Instituto de Educação Musical, minha escola de música, e, principalmente, quando vejo nas redes sociais professores de música prometendo resultados rápidos e superficiais, através de procedimentos apenas lúdicos no processo da aprendizagem musical do aluno.

Sabemos que a sociedade moderna, na sua superficialidade, induz muitas vezes esse tipo de procedimento que, com certeza não é o mais acertado.
Todos nós estamos buscando realizar o nosso trabalho musical de forma pedagógica e, ao mesmo tempo, agradável, enfatizando sempre a beleza que caracteriza a música.
Eu, pessoalmente, gostaria de ver os educadores musicais dando continuidade ao importante trabalho da iniciação musical, primeira fase da vivência musical da criança, num desenvolvimento ordenado e progressivo, conduzindo seus alunos ao pré-solfejo e solfejo propriamente dito.
Sim, como educadores de escola de música, não devemos minimizar o solfejo, que é a conexão do conhecimento com a prática vivenciada pelos alunos. Acredito fortemente que a progressão é necessária, pois realmente prepara o aluno para sua iniciação instrumental.

No IEM, encaramos o solfejo como a alfabetização musical propriamente dita, como continuidade do que é vivenciado na iniciação musical. Trabalha-se a leitura e a escrita da música, o desenvolvimento mais aprofundado da audição, a prática dos intervalos das escalas e dos acordes, a transposição nas diversas tonalidades, o canto a duas vozes, a leitura à primeira vista, os estudos dos compassos, a regência, o ditado, a leitura em dois planos, a realização de arranjos e o exercício da criatividade. Temos aplicado o solfejo também em turmas de adultos, com resultados muito positivos!
A pedagogia Willems (que faz parte da minha formação) nos apresenta essa progressão, que diferencia três etapas distintas do aprendizado musical:
1. A vivência musical global;
2. A tomada de consciência através dos gráficos (do movimento sonoro, da altura do som, da sua intensidade e duração);
3. A vivência consciente (conhecimento do que se faz).
Sim, colegas, precisamos lembrar desta terceira etapa (vivência consciente) – que tem tudo a ver com o que trabalhamos nas aulas de solfejo!

Precisamos também ter consciência de que os alunos têm um potencial enorme e a cada dia temos a chance de perceber que, com essa progressão, eles se tornam cada vez mais ágeis, sensíveis e inteligentes.
MÚSICA É VIDA! E O SOLFEJO É VIVO!
É importante ressaltar que não falo aqui daquele solfejo teórico que tivemos no passado – que eu tive, pelo menos –, mas de um solfejo que trabalha o ouvido musical, com um rico material sonoro, que exercita a vida rítmica, com exercícios de coordenação e independência motora, que trabalha a improvisação, exercitando textos rítmicos, cantando lindas canções (introduzindo o nome das notas, ordenações, escalas e intervalos, tocando as melodias no metalofone). Tudo isso sem esquecer o movimento corporal nas suas diversas modalidades (andando, correndo, saltitando, galopando, balanceando.)

Todo esse trabalho nos leva a leitura e escrita musical, tanto rítmica quanto melódica. É realmente um solfejo VIVO, participativo e criativo, que deve ser realizado com simplicidade, alegria e beleza.
Então, termino essa “carta” convidando você a pensar em como incluir o solfejo nas suas atividades, questionando a busca por uma performance musical aparentemente fácil para investir numa base sólida que renderá frutos maduros na vida musical de seus alunos.
Um bom trabalho.
Carmen Maria Mettig Rocha